Em 2019, dos quase 4 milhões de candidatos que fizeram o ENEM, apenas 53 conseguiram nota 1000 na redação; a média geral ficou abaixo dos 600 pontos. É curioso observar que, mesmo depois de terem assistido a incontáveis aulas de Língua Portuguesa, os candidatos ainda não conseguem escrever um bom texto!

Produzir um texto é uma tarefa assim tão difícil, acessível apenas a alguns mortais que detêm a arte da comunicação escrita ou será que nos falta ainda uma fórmula mágica para acertar em cheio e escrever o texto perfeito?

A Linguística Textual, ciência que estuda o texto, responde: nenhuma das alternativas anteriores.

A visão de texto que remete à tão conhecida redação escolar, ainda na atualidade, entende o texto como um conjunto de orações conectadas através de elementos de coesão, como conjunções (e, mas, porém etc.) e pronomes (ele, seu etc.). Nessa abordagem, a coesão é vista como a ligação entre duas orações. Uma expressão como Mário viu o João é uma oração. Já um conjunto de orações, como Mário viu o João e depois viu o Paulo. Juntos, os três foram comprar doces,seria considerado um texto. Além disso, nessa concepção, um bom texto é aquele que apresenta “correção gramatical e ortográfica”.

Essa forma de caracterização de texto teve seu ponto alto na primeira fase da Linguística Textual, nos anos 60 do século XX, mas não se sustentou por muito tempo. Lendo a descrição do anúncio de classificados abaixo, é fácil perceber por que essa concepção precisaria abrigar em seu escopo novos elementos para tratar dos fenômenos textuais.

A descrição desse anúncio é um texto?

Não há aí nenhuma palavra que une as orações. Elas são ligadas pelo significado e pelo nosso conhecimento de mundo. Sabemos que carros têm donos e bancos; sabemos que donos de carros pagam IPVA etc. A descrição também apresenta uma linguagem diferente da considerada “correta”. As frases são construídas sem verbos, como IPVA 2020 pago, ao invés de o IPVA 2020 foi pago. A expressão a vista é construída sem crase, o que contraria as regras da gramática “tradicional”. Esse tipo de gramática busca a padronização da língua, prescrevendo, por meio de regras e normas, como devemos falar e escrever, independentemente da situação de comunicação. Justamente por isso, essa gramática também é conhecida como “gramática normativa” ou “gramática prescritiva”.

Vale notar que, mesmo não seguindo à risca as regras gramaticais, não temos problemas para compreender o anúncio e não há impedimento para a venda do carro. A descrição é, então, um texto, situado em seu contexto real de circulação.

Assim, a Linguística Textual reconhece, desde a década de 80, que a coesão é apenas um dentre vários fatores colocados em funcionamento para a construção de um texto. No plano verbal, para que um conjunto – oral ou escrito – de palavras seja um texto, é preciso que tal ocorrência esteja vinculada a uma situação comunicativa concreta, apresentando uma intencionalidade por parte da instância que a produz, uma aceitabilidade por parte do leitor ou ouvinte, uma troca de conhecimentos sobre o tema tratado, um equilíbrio entre informações novas e informações supostamente conhecidas sobre o assunto e um “modelo” socialmente conhecido a partir do qual a ocorrência linguística ganhará forma. Esses fatores co(n)textuais e cognitivos trabalham a serviço da construção de sentidos e, vistos em seu conjunto, caracterizam o processo de textualização. É esse fenômeno, portanto, que possibilita a uma expressão linguística o status de texto.

E o que faz um texto ser bom?

Todo texto pertence a algum gênero textual. Gêneros são padrões sociais de uso da língua, determinados principalmente por seus objetivos comunicativos. É esse objetivo comunicativo que determina o estilo de linguagem de cada texto, incluindo “correção gramatical e ortográfica”. O anúncio de classificados é um gênero e tem como propósito comunicativo central apresentar ao leitor um produto a venda. Linguisticamente, nesses textos, é comum a omissão das marcas de coesão, já que eles surgem nos jornais impressos e, nesses veículos de comunicação, o valor do anúncio é cobrado por caracteres. Assim, a partir de um processo de textualização, o anúncio apresentado cumpre bem a sua função comunicativa, possibilitando a construção textual dos sentidos.

Um bom texto, portanto, resulta de um processo de textualização e cumpre bem o objetivo comunicativo do gênero ao qual pertence. Um bom texto não é aquele que tem “correção gramatical e ortográfica”. Da mesma forma, não existe uma pessoa que “escreve bem”, genericamente. Pessoas produzem bem e com facilidade textos em gêneros com os quais estão familiarizadas, conforme suas necessidades comunicativas.

A redação escolar, como a do ENEM, parece considerar o texto como uma compilação de informações sobre determinado tema e como um conjunto de orações ligadas por marcas de coesão. O bom texto, nessa visão reducionista, é o que agrupa orações usando diversificadas marcas de articulação numa construção linguística marcada por “correção ortográfica e gramatical”. Nesse tipo de prática, os demais fatores de textualidade são prejudicialmente desconsiderados. O interlocutor, a interação, o contexto, a intencionalidade e, principalmente, o objetivo comunicativo são colocados em segundo plano, o que contribui para uma escrita descontextualizada, estruturalmente vinculada a uma “fórmula mágica” e cada vez mais distante da natureza dialógica e interacional que caracteriza a própria linguagem.

A Linguística Textual mostra que a dificuldade de escrever esses textos surge justamente dessa característica da redação: a escolha da forma do texto sem um propósito comunicativo em mente, sem a consideração dos demais fatores que constituem o processo de textualização. Como saber o que escrever sem saber a que objetivo o texto serve? A dificuldade, portanto, não é decorrente de falta de dom do escritor ou da ausência de uma fórmula mágica para escrever bem, mas está na concepção que se tem do que seja um texto.

A língua é uma atividade social, histórica e ideológica que somente ganha vida na forma de textos concretos que circulam nas diferentes esferas da vida em sociedade. Assim, os textos – exemplares de diversos gêneros – são instâncias de interação por meio da língua(gem), sendo, também, os mecanismos que usamos para realizar ações, praticar múltiplas trocas linguageiras e atingir diferentes objetivos comunicativos.  

 

Para saber mais

ANTUNES, I. Análise de textos: fundamentos e práticas. São Paulo: Parábola Editorial, 2010.

BEAUGRANDE, R. A. de.; DRESSLER, W. Introduction to Text Linguistics. London: Longman, 1981.

BENTES, A. C. Linguística textual. In: Mussalim, F.; BENTES, A. C. (Orgs.). Introdução à Linguística: domínios e fronteiras. V. 1. São Paulo: Cortez, 2001. p. 245-287. COSTA VAL, M. G. F. Repensando a textualidade. In: AZEREDO, J. C. (Org.). Língua Portuguesa em Debate: conhecimento e ensino. Petrópolis: Vozes, 2000. p. 34-51. KOCH, I. G. V. O texto e a construção dos sentidos. São Paulo: Contexto, 1997.

KOCH, I. G. V. Introdução à linguística textual: trajetória e grandes temas. São Paulo: Contexto, 2015.

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