Assimetrias são encontradas também no modo como falamos, lemos e processamos informações linguísticas.

Uma relevante questão segue sem resposta clara: que princípios atuantes na linguagem seriam específicos dela ou pertenceriam a outros sistemas? Para responder, a Linguística – ciência que estuda a linguagem humana – vem desenvolvendo, com maior ênfase no início dos anos 2000, pesquisas sobre a linguagem dentro da chamada “biolinguística”. O clássico artigo Three Factors in Language Design, do linguista norte-americano Noam Chomsky (CHOMSKY, 2005) fala sobre três fatores que atuam na formação da linguagem humana: I – dotação genética, II – a experiência e III – princípios que são independentes da linguagem e até do organismo. I e II têm sido bastante estudados. III, nem tanto. Somente no estudo de Maia (2016), sobre coordenação e encaixe de estruturas preposicionadas, efeitos de processamento da linguagem foram associados ao fator III e, ao que consta, a primeira tese no Brasil a tratar disso é a que defendi (OLIVEIRA, 2017), “O Processamento da Assimetria Sujeito-Objeto e a Hipótese da Assimetria como Terceiro Fator”, assunto debatido também no evento comemorativo “A UFRJ faz 100 anos”, em 2017.

1. Sobre o Terceiro Fator

Chomsky (2005) define dois subtipos ligados ao terceiro fator: (a) “princípios de análise de dados que podem ser usados na aquisição da linguagem e outros domínios” ou “efeitos de processamento de dados”. Fatores que facilitam/dificultam o processamento da linguagem podem estar de algum modo ligados ao terceiro fator, dentro desse subtipo. O outro é (b) “princípios de arquitetura estrutural e restrições de desenvolvimento (…), forma orgânica (…) que incluem princípios de eficiência computacional, esperados como sendo de particular importância para sistemas computacionais como a linguagem humana”. Essas “restrições” podem ser interpretadas como limitações da própria formação biológica e desenvolvimento humano. Por exemplo, há uma predominância do hemisfério esquerdo em relação ao processamento da informação linguística, da leitura entre outras funções, como veremos à frente. Outro exemplo disso seriam as limitações de memória de trabalho impostas ao processamento de estruturas sintáticas complexas (ver OLIVEIRA, 2013).

2. Sobre Simetria, Assimetria e Linguagem

A noção de simetria é geralmente associada a “ordem”, “correspondência”, “equilíbrio” e a assimetria pode ser ligada a “desequilíbrio”, “diferença”, “conflito”. No mundo, a simetria pode ser exemplificada com a concha de náutilo. O interior da concha, seccionado na foto pela metade, é formado por câmaras simetricamente separadas:

Simetria nas câmaras da concha de náutilo

E quanto à assimetria? O Professor Titular da Faculdade de Medicina da UFRJ, Roberto Lent, em seu livro “100 Bilhões de Neurônios”, ensina que:
“(…) Também as assimetrias são comuns no mundo animal: o coração pende para o lado esquerdo, o fígado fica do lado direito, as mãos não são exatamente iguais, e assim por diante. O sistema nervoso não foge a essa regra: é assimétrico morfológica e funcionalmente, como são assimétricos também muitos comportamentos que ele controla. Mas as assimetrias neurais humanas atingiram grande complexidade, passando a possibilitar a especialização de um lado do cérebro em algumas funções, e do lado oposto em outras.” (LENT, 2001:681)

Curiosamente, assimetrias são encontradas também no modo como falamos, lemos e processamos informações linguísticas na mente/cérebro. Hoje sabemos que o processamento da leitura é feito em uma pequena região atrás do cérebro, no lado esquerdo, a Área da Forma Visual das Palavras (DEHAENE, 2012), ativada quando lemos palavras da nossa língua, não figuras, por exemplo. Outra assimetria é vista na ordem vocabular. Observe o levantamento feito por Matthew Dryer em 1992:

Assimetria Sujeito-Objeto na ordem vocabular

Lembrando: S=sujeito, V=verbo e O=objeto. Há aí uma Assimetria Sujeito-Objeto (ASO): línguas com objeto inicial somam apenas 2%. já as de sujeito inicial totalizam 87%. Atualmente, a ASO vem sendo estudada em português por mim e por outros autores, com técnicas experimentais variadas, no campo de pesquisas da Psicolinguística e da Neurociência da Linguagem. Você pode saber mais procurando as referências ao final deste artigo.

3. Conclusão

Várias noções têm sido relacionadas à ideia de terceiro fator e muitas ainda permanecem esquecidas ou pouco trazidas à avaliação científica (ver artigo de JOHANSSON, 2013), embora existam princípios gerais que atuam sobre a natureza e a linguagem, como a assimetria. Tais noções devem pesquisadas à luz das variadas abordagens da ciência linguística, para entendermos melhor a atuação dos três fatores na linguagem e também alcançar o grande público, ao aproximar a linguística de outras ciências naturais.

REFERÊNCIAS

CHOMSKY, N. Three Factors In Language Design. Linguistic Inquiry, vol. 36, n.1, p.1-22, winter 2005.

DEHAENE, Stanislas. Os Neurônios da Leitura: como a ciência explica nossa capacidade de ler. Porto Alegre: Editora Penso, 2012. Tradução Leonor Scliar-Cabral.

DRYER, M.S. “The Greenbergian Word Order Correlations”. Language, 68(1), p.81-138, 1992.

JOHANSSON, S. Biolinguistics or Physicolinguistics? Is the Third Factor Helpful or Harmful in Explaining Language? Biolinguistics 7: 249–275, 2013.

LENT, R. Cem Bilhões de Neurônios. Rio de Janeiro: Atheneu, 2010. 2ª ed.

OLIVEIRA, Fernando Lúcio de. O Processamento da Assimetria Sujeito-Objeto em Construções do Tipo QU no Português Brasileiro: Interrogativas e Relativas. Dissertação de Mestrado. Rio de Janeiro, UFRJ, 2013.

OLIVEIRA, Fernando Lúcio de. O Processamento da Assimetria Sujeito-Objeto e a Hipótese da Assimetria como Terceiro Fator. Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2017. Tese de Doutorado.

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