Os verbos formam um grupo de palavras que têm características mórficas próprias. Apenas esse grupo lexical tem flexões verbais, um finalzinho de palavra que expressa pessoa, número e tempo.
Canto, cantaremos e cantei expressam [1ª pessoa, singular e presente], [1ª pessoa, plural e futuro] e [1ª pessoa, singular e pretérito] em função dessas flexões. Por isso, essas palavras são verbos. Além disso, leva-se em conta onde essas palavras ocorrem para saber se funcionam como verbos. Por exemplo, quando a gente fala que
(1) a Tânia colocou o vaso no canto da sala, que
(2) a Tânia estuda o canto popular brasileiro e que
(3) eu canto muito mal se comparado com o Gil,
temos a mesma sequência sonora [‘kãtu] em funções diferentes. Em (1), canto é um local na casa da Tânia. Em (2), canto é o tema que ela estuda. Nessas duas primeiras frases, canto funciona como substantivo. Apenas na frase (3), canto funciona como verbo.
O outro traço que interessa aqui tem a ver com o significado verbal. Verbos expressam eventos. O conceito de evento não é fácil de se definir, mas vamos assumir que um evento é algo que pode ser narrado ou é uma situação que pode ser caracterizada. Quando a gente diz que
(4) a Tânia serviu um café para o sogro,
um evento é relatado por uma frase composta pelo verbo [serviu] + os complementos [a Tânia], que vem antes do verbo, e [um café] e [para o sogro], que vêm depois dele. Quando a gente diz que
(5) o café estava super doce,
a frase caracteriza uma situação fazendo uso do verbo [estava] + o complemento [o café], que aparece antes dele, e um outro complemento verbal [super doce] que vem depois. O primeiro caso é um evento-episódio, algo que ocorreu e que foi relatado. O segundo caso é um evento-situação, em que foi feita uma caracterização.
Antes de falar sobre o uso verbal infantil, é importante voltar a um aspecto sobre os verbos: a quantidade de complementos que pedem. Nas frases abaixo, o evento “almoçar” é verbalmente expresso com mais ou menos complementos:
(6) [Eu] almocei [uma salada].
(7) Almocei [uma salada].
(8) Almocei.
A frase (6) tem 2 complementos. A frase (7) tem um complemento. E a frase (8) não tem nenhum. Mesmo em apresentação solitária, o verbo almocei oferece uma quantidade significativa de informações: a hora da refeição, a temperatura da comida, o sabor da receita, quantas pessoas comeram e que a bebida que acompanhou a refeição é fria etc.
Antes ainda de apresentar o primeiro uso verbal localizado na fala de uma criança durante sua conversa com a mãe, vale falar sobre quem participa dessa conversa. A mãe, a avó e a criança, que teve a primeira fala gravada aos 5 meses de idade, moram em uma pequena cidade de Minas Gerais. Durante 4 anos, uma vez por mês, a mãe registrou as conversas entre eles usando um gravador que em nada afetou a dinâmica dos diálogos.
Nesse conjunto de gravações, o primeiro uso verbal infantil localizado foi a expressão cabô, uma forma reduzida de [<acabou], que a criança falou. Nesta data, o protagonista infantil, identificado como G, tinha um ano e seis meses de vida. A conversa aconteceu na sala onde assistiam TV. A criança caminhava em direção da mãe carregando um copo de vidro vazio.
- Mãe: Menino, esse trem quebra!
- Avó: Também sua mãe não tem juízo, né meu filho?
- Mãe: Fala assim: não fala mal da minha mãe.
- G: Vó.
- Avó: Nem um tiquim, nem um pinguinhozim
- G: Cabô.
- Mãe: Cabô, filho?
- G: É.
- Mãe: É, cabô. Pede a vovó mais.
- Avó: Mais o que?
- Mãe: Pede a vovó mais, pede.
- Avó: O que cê que fi?
- G: Ma.
- Avó: Ham?
- G: Ma.
- Mãe: Fala assim: mais vovó.
- G: Mais.
- Avó: Mais o que?
- Mãe: Ô filho, G, G olha aqui pra mamãe. Psiu. Fala assim com a vovó: café.
- G: Bô.
G usa o verbo acabar duas vezes: uma vez na forma cabô, após a fala da avó, e outra na forma bô, após a fala da mãe. Nos dois casos, a criança mostra a elas que o copo está vazio, porque o que tinha nele… cabô. A criança narra um evento usando um verbo sem complementos e é compreendida pelas interlocutoras: as adultas que dialogam com G não reconheceram incompletude na fala da criança e, por isso, dão sequência na conversa.
Tem mais a ser dito sobre esses dois primeiros usos verbais reconhecidos na fala de nosso protagonista. Eles têm funções diferentes. O primeiro uso é uma explicação. A mãe e a avó receavam que G se acidentasse com o objeto de vidro que carregava: …esse trem quebra, …sua mãe não tem juízo.
G se aproximou e explicou que ostentava o copo de vidro porque o que ele continha… cabô. A explicação é compreendida e acatada pela mãe: É, cabô.
O segundo uso verbal infantil que expressa o evento “acabar” se deu em uma forma ainda mais reduzida: bô. Nesse caso, G usa o verbo acabar para justificar o pedido à avó por maisbebida. Traduzida para uma forma convencional, o pedido feito pela criança seria algo como ‘a bebida que estava no copo acabou, por isso, peço mais’.
Desde as pesquisas de Roger Brown publicadas nos anos 1950, a linguística reconhece a pertinência dos estudos sobre o uso verbal infantil. Falar um verbo significa identificar o começo e o fim de um evento, significa identificar um objeto e a ele atribuir alguma característica. Não se sugere aqui que haja uma relação direta entre a habilidade cognitiva e a expressão verbal – muita água passa por debaixo dessa ponte. O que pode se dizer é que, a seu modo, a criança é capaz de identificar, processar e expressar eventos durante os diálogos dos quais participa. Como afirma Rosa Attié Figueira, num texto publicado em 2019, é justamente durante “as situações rotineiras de interação” que incluem “quem fala, a quem se fala e as expectativas que cada qual reconhece no outro a quem a fala é dirigida” (p. 106) que ocorrem as alternâncias de turnos de fala entre os adultos e as crianças. Durante essas interações, os pais verbalizam para os filhos aquilo que fizeram, fazem ou vão fazer. Aprende-se, assim, a expressar eventos concretos e abstratos, fazendo uso de expressões linguísticas ricas em informação verbal e não-verbal.
Para saber mais
De Lemos, Maria Teresa Guimarães. A língua que me falta – uma análise dos estudos em aquisição de linguagem. Campinas: Mercado de letras, 2002.
Del Ré, Alessandra; Orvig, Anne Salazar. Olhares dialógicos sobre a aquisição da linguagem. Bakhtiniana. Revista De Estudos Do Discurso, vol. 16, n. 1, p. 4-11, 2020.
Figueira, Rosa. Inovações na expressão da agentividade – episódios marcantes da trajetória linguística da Criança. Linguística, vol. 35, n. 2, p.105-127, 2019.
Perini-Santos, Pedro; Ferreira-Santos, Lídia;Leal, Jéssica; Bodolay, Adriana. Pesquisa longitudinal: a evolução do uso lexical de uma criança dos 5 aos 22 meses de vida em um diário parental. Revista de Estudos da Linguagem, v. 27, n. 1, p. 73-104, 2019.
Perini, Mário. Estudos de Gramática Descritiva – as valências verbais. São Paulo: Parábola, 2006.
