“VOCÊ VAI FICAR ROXO DE SURPRESA AO DESCOBRIR COMO INTENSIFICAMOS HORRORES”

Algumas estratégias de intensificação do português brasileiro.

Nahendi Almeida Mota, Letícia Freitas Nunes e Marcia dos Santos Machado Vieira · Nahendi Almeida Mota é doutoranda em Língua Portuguesa, na UFRJ, e estuda como as cores são utilizadas em construções intensificadoras no Português Brasileiro. Letícia Freitas Nunes é graduanda do Curso de Licenciatura em Letras: Português-Inglês, na UFRJ, e estuda construções intensificadoras formadas por verbos seguidos de "horrores". Marcia dos Santos Machado Vieira é professora-pesquisadora de cursos de Graduação e Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Desenvolve investigações sobre diversos conteúdos de língua portuguesa, liderando os projetos PREDICAR (https://projeto-predicar.wixsite.com/predicar), a que se vinculam as três autoras, e VARIAR (https://variar.wixsite.com/variar/projetos). Foi professora de Português da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro.

Nós, autoras deste artigo, somos três professoras-pesquisadoras que, devido ao ensino remoto e a todos os compromissos assumidos, temos tido uma rotina bastante corrida: acordamos super cedo e tomamos café da manhã voando; realizamos trocentas tarefas domésticas, ministramos muitas aulas, lidamos com um milhão de atividades on-line, com uma montanha de leituras e também com as chamadas de vídeo eternas; dormimos tardão e, no dia seguinte, começamos tuuudo de novo.

No parágrafo acima, algumas palavras/expressões em itálico têm um aspecto em comum: estão intensificando ações, emoções, sensações… Parece que, durante uma rotina tão exaustiva, por exemplo, não basta dizer “Estou cansado”. Parece muito mais adequado que digamos “Estou morto de cansaço” ou, até, “Estou cansado pra caramba”. Logo, o tamanho, a quantidade e/ou a avaliação de um evento ou um estado, por exemplo, ultrapassam o limite “normal” quando intensificados.

Aqui, para ilustrar o processo de intensificação, trouxemos dois objetos linguísticos pesquisados por nós: um focado na intensificação de estados de coisas, e outro, na intensificação de emoções e sensações. Para analisá-los, levamos em conta técnicas e conceitos dos estudos linguísticos sobre a relação entre aspectos sociais e culturais, situações comunicativas e língua. Podemos pensar na língua como uma rede de construções, ou seja, uma teia de unidades que têm forma e significado conectados e as quais se combinam em textos. Os exemplos das duas maneiras de intensificar, destacadas a seguir neste texto, foram coletados na rede social Twitter e examinados a partir de perguntas sobre as características e a frequência deles nessa situação comunicativa.

Duas maneiras de intensificar no Português Brasileiro

Nós intensificamos horrores

“Choro horrores toda vez que vejo esse filme!”

“Fui em um rodízio de pizza ontem e comi horrores!”

Construções do tipo “VERBO + horrores” são extremamente recorrentes no Português Brasileiro.  No entanto, embora diversos verbos possam integrar essa construção, alguns são mais frequentes do que outros. Os verbos “chorar”, “sofrer” e “rir”, por exemplo, são bastante empregados na formação dessa construção.

Já verbos como “enxergar” ou “praticar” muito raramente são usados. Como linguistas, nosso trabalho é analisar, a partir de dados concretos, não só quais verbos são mais utilizados pelos falantes nesses casos, mas também levantar hipóteses acerca dos motivos para isso. Esses motivos podem envolver a transitividade, as características semânticas do verbo e muitos outros fatores. 

Azul de fome? Roxo de raiva? Vermelha de vergonha?

As cores estão presentes em nosso dia a dia e contribuem para as nossas impressões sobre o mundo, tanto que elas têm sido utilizadas em construções que intensificam emoções, sentimentos e sensações, formando construções do tipo “X de Y”, em que o X é preenchido por uma cor e o Y, por nomes diversos. Você já deve ter ouvido/lido, por exemplo, que alguém está “roxo de raiva”, “vermelho de vergonha”, “azul de fome”.

Embora muitas pessoas realmente sofram alterações de cor na pele por causa de uma emoção, nem sempre isso, de fato, acontece. Inúmeras vezes, essas construções são usadas de maneira metafórica, revelando-se uma extensão, já com outro sentido no uso.

Em outras palavras: já que algumas pessoas sofrem alteração na cor da pele devido a uma emoção sentida intensamente (como a vergonha) ou por causa de uma reação física, por analogia, a construção intensificadora com cores passou a ser utilizada em outros contextos também.

Essa extensão no significado e no contexto linguístico em que as cores aparecem pode ser notada, inclusive, a partir de usos inusitados, como em “preto de fome” e “verde de raiva”, construções pouco comuns. Afinal, embora sejam cores utilizadas pelos falantes em construções intensificadoras, as mais recorrentes ainda são “vermelho” e “roxo”, cores associadas à alteração na cor da pele. E, quando dizemos que são recorrentes, temos em mente, por exemplo, que, numa amostra de 4000 tweets em que há a palavra “vermelho(a)”, aproximadamente 1000 são de construções intensificadoras, enquanto, em 2000 dados em que há a palavra “verde”, menos de 160 são intensificadores.

Essas construções são bem interessantes, e as nossas pesquisas têm sinalizado aspectos curiosos sobre elas, por exemplo:

(i) em geral, são utilizadas para intensificar aspectos psicológicos em vez de aspectos físicos e fisiológicos;

(ii) dentre os aspectos psicológicos intensificados, a maioria tem um teor negativo, como “ciúmes”, “raiva”, “fome”, embora também acompanhem sensações e sentimentos “neutros”, como “saudades” e “vergonha”, e, raramente, alguns positivos, como “amor” e “alegria”; e

(iii) em alguns contextos, elas são utilizadas como variantes, pois o significado da cor em si é deixado de lado e o valor de intensificação é assumido por todas elas, tanto que “roxo”, “verde” e “azul”, por exemplo, intensificam “fome”, em um contexto em que não se faz alusão alguma à cor.

Para não cansar horrores o nosso leitor, os últimos destaques…

A intensificação é um recurso bastante produtivo do Português Brasileiro e está presente tanto na fala quanto na escrita das mais diversas pessoas, em gêneros mais monitorados e em gêneros mais espontâneos, em registros formais e informais, em todos os níveis linguísticos, a exemplo do fonético-fonológico (muiiiito, em “há muiiitos tipos de intensificadores”), do morfológico (uso de sufixos, como -íssima, em “a pesquisa sobre esse assunto é interessantíssima”), do lexical (acentuar e baita, em “acentuamos alguns usos numa baita síntese”), do sintático (a perder de vista, em “intensificamos a perder de vista”) e do semântico (associação, manifesta em linguagem verbal ou não-verbal, com orientação em direção a cume, extremo ou infinito, por exemplo, em “o assunto é top!”).

Aqui, descrevemos e analisamos duas construções bastante produtivas, a fim de registrar o quanto os falantes do português são criativos e utilizam horrores a intensificação! Porém, quem ficou verde de curiosidade pode pesquisar mais sobre o assunto e se deparar com vários outros recursos intensificadores, pra lá de motivadores da Linguística!

Referências

MOTA, Nahendi Almeida; MACHADO VIEIRA, Marcia dos Santos. A construção de intensificação com lexemas de cor no português brasileiro. Revista Linguíʃtica, v. 16, p. 50-68, 2020. Disponível em: https://revistas.ufrj.br/index.php/rl/article/view/33904. Acesso em: 31 out. 2020.

VIEIRA, Silvia Rodrigues; MACHADO VIEIRA, Marcia dos Santos. A expressão de grau: para além da morfologia. Cadernos de Letras da UFF – Dossiê: Literatura, Língua e Sociedade, n. 34, p.63-83, 2008.