Robert Moura Sena Gomes · Pessoa trans não-binária, pesquisa sobre os discursos militantes. Em sua recente dissertação de mestrado, chamada “Por uma linguística (mais) popular: a construção do gênero neutro como dissidência linguística”, analisou diferentes discursos sobre as propostas de Linguagem Neutra no Português brasileiro.

A língua é uma das instituições mais utilizadas pelas transformações sociais, isso porque é na língua e através da língua que podemos também materializar nossa luta, como a representação linguística de uma sociedade mais justa. Quando pensamos em grupos minorizados socialmente, ou seja, grupos que sofrem com diversos empecilhos e tantas formas de apagamento e silenciamento de suas existências, a língua possui mais do que o papel de nomeá-los, passa a ter a função de perfazer sua luta, sua (re)existência e seus direitos. Assim acontece com as propostas populares dissidentes de Linguagem Neutra e Linguagem Inclusiva.

Parte da comunidade LGBTQIAPN+ (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transsexuais, Queer, Interssexo, Assexuais, Panssexuais e Não bináries), especificamente as pessoas não binárias (pessoas que não se identificam como homens ou como mulheres), busca formas na língua de representar sua existência e resistência, daí parte-se a necessidade de criação de novas formas de marcação de gênero na língua que vão além do masculino e feminino — cada uma dessas novas formas neutras recebe o nome de Linguagem Neutra. Parte das mulheres, pessoas também socialmente afligidas pelo machismo, propõe não novas formas na língua para a marcação de sua existência, mas a partir de formas já existentes na língua que sejam mais inclusivas, que considerem todas as pessoas como marca da pluralidade, como coletivo.

A Linguagem Neutra parte de propostas que visam à inserção de novas formas para a marcação de gênero na língua de pessoas não binárias, as mais conhecidas foram “[email protected]”, “-x” e “-e” — entretanto, outras propostas também existiram, como o uso do asterisco “-*”.

As propostas populares dissidentes de neutralidade de gênero linguístico no Brasil datam, pelo menos, por volta de 2016 — contudo, é possível que essas dissidências linguísticas tenham começado muito antes. Outras línguas em que o gênero não é marcado por um morfema (unidade linguística mínima com significado) também contam com suas propostas linguísticas dissidentes, como a Língua Inglesa dos Estados Unidos, em que se propõe utilizar pronomes neutros, como “-they” e “-them”, e a Língua Francesa, com o uso do pronome neutro “-Iel”.

É comum acharmos que a Linguagem Neutra se resume à criação ou ao uso de um “pronome neutro”; contudo, é importante salientar que existem outras classes de palavras que também marcam gênero, como por exemplo:

  • os substantivos (também chamados de “nomes”): “professor” (gênero masculino), “professora” (gênero feminino), “professore” (gênero neutro);
  • os adjetivos (palavras que qualificam): “esforçado” (gênero masculino), “esforçada” (gênero feminino) e “esforçade” (gênero neutro);
  • numerais: “um” (gênero masculino), “uma” (gênero feminino”) “ume” (gênero neutro);
  • pronomes pessoais: “ele” (gênero masculino), “ela” (gênero feminino) e “elu”/”ile” (gênero neutro);
  • pronomes possessivos: “dele” (gênero masculino), “dela” (gênero feminino) e “delu”/“dile” (gênero neutro);

Ao passo que as propostas neutras trazem uma nova configuração para a língua, a Linguagem Inclusiva de Gênero propõe o uso de formas linguísticas já existentes na Língua Portuguesa como forma de inclusão de todas as pessoas: ao invés de cumprimentarmos um grupo de pessoas com “Olá a todos”, passa-se a saudá-lo com “Olá a todas as pessoas” — isso porque “todos”, ainda que tido como genérico, ou seja, marcando as pessoas independentemente se são homens, mulheres ou pessoas não binárias, reforça o masculino como forma não marcada e, do ponto de vista da proposta inclusiva de gênero, consequentemente, a posição de privilégio que homens possuem na sociedade.

Assim, a Linguagem Inclusiva também considera que a questão social do machismo e do patriarcado — em que homens ocupam lugares de destaque, de protagonismo, de privilégio e controle na/da sociedade, o qual também se manifesta na língua pelo uso de palavras masculinas como marcadoras de coletividade.

Tanto as propostas de Linguagem Neutra quanto a proposta de Linguagem inclusiva podem ser vistas como propostas linguísticas dissidentes, ou seja, são propostas realizadas por pessoas que, ao enxergarem a si como importantes na luta contra a desigualdade social que se materializa também na língua, visam tornar a língua mais inclusiva e representante de sua(s) (re)existências. São dissidentes porque, a partir de seu conhecimento sobre sua língua, trazem, respectivamente, novas formas de marcar identidades de gênero não binárias e utilização de formas linguísticas já existentes mais inclusivas, de modo que reiteram que a Língua Portuguesa também é das e para as pessoas não binárias e mulheres, a língua é para todes e de todas as pessoas.

Não importa saber se a língua, em sua constituição, foi ou não pensada de modo a excluir ou materializar as desigualdades, o que importa é que, hoje, é mais que sabido que ela é utilizada para a manutenção de privilégios e desigualdades.

As pessoas linguistas dissidentes — linguistas populares (pessoas que, independentemente de formação, repensam sua língua) ou linguistas de formação — desejam uma sociedade mais justa também através de sua língua. É por isso também que se luta e se propõem mudanças na língua: por inclusão e respeito.